Sou médica veterinária formada já faz algum tempo. Fiz residência, trabalhei em hospitais veterinários tratando animais, e buscando sempre oferecer o bem-estar animal.
Vivenciei muitas situações desafiadoras, como acidentes, doenças, mortes, mas também muitas situações de cura e sucesso, felizmente!
É verdade que vamos criando uma casca grossa que nos permite tomar decisões objetivas frente ao caos, mas há duas situações que não me acostumei e creio que nunca vou me habituar.
A primeira situação que gostaria de compartilhar é sobre a eutanásia em animais que por alguma razão apresentam sofrimento e não é possível oferecer tratamento adequado (ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis).
É como brincar de ser Deus, e na verdade, nunca me acostumei com esse procedimento. Meu travesseiro sabe bem o quanto sofri por isso, mesmo sabendo que a decisão foi tomada para eliminar o sofrimento do animal.
A segunda situação é sobre a posse irresponsável. O tutor que decide ser responsável por um animal deve considerar que um ser vivo e senciente precisará de cuidados durante toda sua vida.
Nós, médicos veterinários, fazemos nosso juramento para cuidar e respeitar os animais, mas de certa forma temos que lidar também com a espécie humana (minha sincera admiração aos colegas médicos que tem que lidar com a espécie mais exótica na minha humilde opinião: o ser humano). Não consigo entender como algumas pessoas podem descartar animais de maneira tão cruel.
Compartilho uma história pessoal que novamente demonstrou como NÃO me acostumei com algumas situações, que infelizmente estão frequentemente associadas à adoção de animais.
Maio de 2020, pandemia latente, uma amiga me ligou para falar sobre um canil clandestino que havia sido descoberto por anjos (Delegado Bruno Lima e Cães do Mundo da Lua) e que muitos animais precisariam de um novo lar.
Os animais de raça Buldogue Francês e Pug eram utilizados para reprodução e comercialização. Essas raças já possuem características físicas decorrentes de cruzamentos passados que trazem alterações e limitações físicas, como dificuldade respiratória, por conta do formato de estruturas ósseas, deformidades na coluna vertebral, entre outras.
Pois bem, esse canil clandestino seguia o processo de “pioramento genético” para obter animais pequenos, e dessa forma, atrair mais clientes.
Ambas as raças possuem dificuldade respiratória, de termorregulação, e mesmo assim, todos viviam em ambiente insalubre, onde estavam expostos aos dias quentes, frios, chuvosos, vivendo no meio de suas próprias fezes e privados de água e comida.
Todos os animais foram resgatados e levados pela equipe para uma clínica veterinária parceira, onde receberam pronto atendimento e preparação para adoção.
É longo o período entre resgate e adoção, pois os animais devem estar em perfeito estado de saúde, vermifugados, vacinados, castrados, para então seguir para seu novo lar, após análise do perfil do tutor.
Eu e meu marido somos apaixonados por animais, sempre tivemos cães em casa. Quando minha amiga me ligou falando sobre a possibilidade de adoção, imediatamente nós sinalizamos que tínhamos interesse em adotar um cão.
Como veterinária e já tutora de um buldogue francês, estaria apta para seguir para a análise de perfil de tutora, felizmente.
Fomos até a clínica para adotar nosso novo filho chamado Murilo, nome do anjo que o resgatou e claro que o mantivemos.
Murilo já era um senhor, magro, de pelagem branca, mas no momento laranja, pois vivia na lama. Me apaixonei e me emocionei no primeiro momento em que o peguei no colo.
Enquanto esperávamos por ele, presenciei uma cena que partiu meu coração. Uma cadela da raça Pug, também utilizada como reprodutora e de idade avançada, havia sido devolvida pelo tutor.
Não bastava ter sido submetida a uma vida de exploração, a pobre passava por uma nova rejeição.
É muito comum que pessoas prefiram adotar cães de raça. O que não sabem, ou ignoram, é que algumas raças necessitam de mais cuidados, pois já possuem algumas características físicas que cedo ou tarde precisarão de atenção.
Adicionalmente, cães submetidos a maus-tratos estão sensíveis, vulneráveis, amedrontados e muitas vezes até agressivos, o que exige dos novos tutores uma paciência extra e muito amor.
Murilo passou por tudo isso que acabo de relatar. Teve diversos problemas de saúde, dificuldade de adaptação por conta do trauma, mas nada como o tempo, amor CONDICIONAL e posse RESPONSÁVEL para curar.
“Haverá um dia em que os homens conhecerão o íntimo dos animais, e nesse dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a humanidade. Leonardo da Vinci”
Isabel Ponce de Leon
@belcpleon
Médica veterinária formada em 2001 pela Universidade Metodista de São Paulo, com residência em clínica de equinos, pós graduação em Anestesiologia Veterinária, MBA em Agronegócios e atualmente atua no setor corporativo. Apaixonada pelos animais e natureza, segue engajada na causa animal e sustentabilidade.
Fonte: https://totosdatete.org.br/
