A geração dos avós virou um dos consumidores mais disputados do mercado

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Por Markable Comunicação | HomeworkMarkable Comunicação | Homework/Nacional – 

No Dia dos Avós, especialistas mostram como o público acima dos 60 anos deixou de ser visto apenas como consumidor de saúde e passou a impulsionar negócios em setores como gastronomia, educação, tecnologia, estética, bem-estar e medicina preventiva

Durante muito tempo, envelhecer significava reduzir o ritmo da vida, consumir medicamentos e, em muitos casos, depender da família. Esse retrato, no entanto, ficou no passado. A população brasileira está vivendo mais, permanecendo economicamente ativa por mais tempo e transformando completamente a forma como diferentes setores enxergam quem já passou dos 60 anos.

No Dia dos Avós, celebrado em 26 de julho, a chamada economia prateada ganha ainda mais evidência. Gastronomia, educação, tecnologia, estética, medicina preventiva e bem-estar descobriram um consumidor exigente, conectado, fiel às marcas e disposto a investir em experiências que proporcionem autonomia, saúde e qualidade de vida.

Mais do que consumir produtos, essa geração busca soluções que permitam continuar viajando, trabalhando, aprendendo, convivendo com a família e preservando sua independência. Empresas que antes direcionavam seus serviços principalmente ao público jovem agora adaptam seus modelos de negócio para atender às necessidades e expectativas desse novo perfil.

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Da cozinha da avó nasceu um negócio

A gastronomia talvez seja um dos exemplos mais claros dessa transformação. A Bro Art & Burguer, hamburgueria localizada no Rio de Janeiro, com unidade física em Olaria e operação de delivery para Botafogo e Méier, percebeu que o consumidor maduro passou a frequentar estabelecimentos antes associados principalmente aos jovens.

Para o empresário Marcus Carnevale, fundador da hamburgueria, esse movimento acontece porque o hambúrguer artesanal deixou de ser apenas um lanche e passou a representar uma experiência gastronômica completa.

“Tenho percebido um aumento na presença do público acima dos 60 anos nas hamburguerias. Acho que isso acontece porque o hambúrguer artesanal deixou de ser visto apenas como comida para jovens e passou a oferecer uma experiência gastronômica para todas as idades. Muitos vêm acompanhados da família, dos filhos e netos, e também procuram ambientes agradáveis, atendimento de qualidade e ingredientes de boa qualidade. Hoje eles procuram boa comida, um ambiente agradável e momentos de convivência, mostrando que o hambúrguer artesanal conquistou um público muito mais amplo do que há alguns anos”, explica o empreendedor.

Para o empresário, a geração 60+ ensina lições importantes para todo o setor gastronômico.

“O consumidor da geração 60+ ensina que um restaurante não pode focar apenas em tendências ou redes sociais. Esse público valoriza qualidade, atendimento atencioso, conforto, limpeza e consistência. Eles costumam ser clientes fiéis quando têm uma boa experiência e mostram que pequenos detalhes fazem toda a diferença.”

A geração prateada também busca por conhecimento, se antes os cursos profissionalizantes eram procurados principalmente por jovens em busca de uma profissão, hoje eles também recebem alunos que desejam realizar sonhos antigos. A Receitaria Escola Gourmet, localizada em São Paulo, oferece cursos presenciais de gastronomia, confeitaria e panificação e percebe que muitos alunos acima dos 60 anos procuram a escola por motivos bastante diferentes do empreendedorismo.

Segundo Erick Passarelli, engenheiro químico, CEO da Receitaria Escola Gourmet e formado em Ciência Aplicada à Gastronomia pela Harvard University, a maioria chega movida pelo desejo de aprender.

“Na nossa realidade, o público acima dos 60 anos não representa a maior parte dos alunos, mas os que chegam até nós normalmente buscam a gastronomia por realização pessoal. Muitos sempre tiveram vontade de aprender técnicas profissionais, cozinhar melhor ou transformar um hobby em uma atividade prazerosa Existem casos pontuais de alunos que cogitam empreender após a aposentadoria, mas, de forma geral, eles procuram o curso para desenvolver uma habilidade, realizar um sonho antigo ou até mesmo ocupar o tempo de forma produtiva e prazerosa. O empreendedorismo pode surgir como consequência, mas raramente é a principal motivação”, comenta Erick.

Exercitar o cérebro também movimenta a economia

O envelhecimento saudável deixou de estar restrito aos cuidados físicos. Manter o cérebro ativo tornou-se uma prioridade para milhares de brasileiros. Pioneiro em estimulação cognitiva no país, o Supera, empresa educacional presente em todo o Brasil, observa que a maior longevidade fez crescer a procura por atividades que preservem memória, raciocínio e autonomia.

Para Luiz Moraes, diretor de Relacionamentos Institucionais do Método Supera, esse comportamento acompanha mudanças profundas da sociedade.

“O aumento da expectativa de vida, alinhado ao desejo de viver com mais qualidade, transformou a busca por conhecimento em um projeto ativo de longevidade. Muitas pessoas querem mais saúde física e mental, prolongar a carreira profissional e realizar sonhos antigos. O público maduro não busca a estimulação cognitiva apenas por saúde, mas também como ferramenta de atualização profissional. Essa postura reflete o conceito de lifelong learning, impulsionado pela necessidade de acompanhar a transformação digital e as novas dinâmicas do mercado. A geração 60+ concentra renda, possui tempo disponível e influencia o consumo de famílias inteiras. É um público que investe em turismo, gastronomia, educação, tecnologia, saúde e bem-estar, tornando-se um dos mercados mais estratégicos para empresas de todos os setores”, afirma diretor de Relacionamentos Institucionais do Método Supera.

Tecnologia, medicina e longevidade passam a caminhar juntas

O envelhecimento da população também acelerou o desenvolvimento de soluções digitais voltadas à saúde. Se antes aplicativos e plataformas eram vistos como ferramentas para públicos mais jovens, hoje eles se tornam aliados importantes de pacientes acima dos 60 anos, familiares e profissionais de saúde.

O OncoApp, aplicativo gratuito disponível para Android e iOS que ultrapassou a marca de 50 mil usuários, reúne informações sobre o tratamento do câncer, organiza a rotina dos pacientes e oferece acesso a uma rede de apoio especializada. A plataforma reflete uma mudança importante: a tecnologia passou a fazer parte da jornada do envelhecimento saudável.

Segundo o idealizador do aplicativo, dr Caetano Marchesini, o envelhecimento populacional exige um novo olhar para o cuidado. Outro aspecto observado é a mudança no comportamento dos próprios idosos diante das ferramentas digitais.

“O envelhecimento da população está mudando a própria lógica do cuidado em saúde. Vivemos mais, mas também convivemos por mais tempo com doenças crônicas, usamos mais medicamentos e precisamos de acompanhamento contínuo. A tecnologia deixa de ser apenas uma conveniência e passa a ser uma ferramenta de cuidado. Existe ainda um estereótipo de que pessoas acima dos 60 anos têm resistência à tecnologia, mas essa realidade mudou muito. Essa geração usa WhatsApp, faz transações bancárias pelo celular, compra pela internet, viaja utilizando aplicativos e se comunica com filhos e netos digitalmente. Quando a tecnologia resolve um problema real e é simples de usar, a idade deixa de ser a principal barreira”, explica Dr. Caetano.

Segundo a equipe do OncoApp, as plataformas digitais também assumem um papel importante dentro das famílias. Para ele, o mercado de healthtech já compreendeu que longevidade significa muito mais do que tratar doenças.

“O público 60+ não quer apenas tratar doenças. Quer viver melhor, preservar autonomia, mobilidade, capacidade cognitiva e qualidade de vida. Estamos deixando de falar apenas de assistência à doença e começando a falar de longevidade.”

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Formar médicos para uma população que vive cada vez mais

O impacto da economia prateada também já pode ser percebido na formação dos futuros médicos. Com unidades na Barra da Tijuca e na Tijuca, no Rio de Janeiro, o Foco Medicina, curso preparatório para vestibulares de Medicina, acompanha de perto como o envelhecimento da população influencia até mesmo a escolha das especialidades médicas.

Para Carol Braga, professora de Biologia e CEO da instituição, o estudante que ingressa hoje na Medicina já entende que encontrará um perfil de paciente muito diferente daquele de décadas atrás.

“O estudante que ingressa hoje na Medicina sabe que vai exercer a profissão em uma sociedade muito mais longeva. Isso naturalmente aumenta a relevância da Geriatria, mas também de áreas como Cardiologia, Neurologia, Endocrinologia, Ortopedia, Oncologia e Medicina de Família. O objetivo deixou de ser simplesmente viver mais anos e passou a incluir viver mais anos com saúde, autonomia e capacidade funcional. Por isso cresce também o interesse por prevenção, medicina do esporte e áreas relacionadas à saúde e performance. A doença de um familiar, a convivência com os avós ou até uma experiência positiva com determinado médico podem influenciar profundamente a decisão de cursar Medicina. Muitas vezes, o primeiro contato de um jovem com temas como envelhecimento e cuidado acontece justamente dentro da própria família. Será cada vez mais necessário enxergar o paciente para além de uma doença isolada. O médico precisará integrar prevenção, nutrição, atividade física, cognição, saúde mental e capacidade funcional para acompanhar uma população que deseja permanecer ativa por muito mais tempo”, comenta Carol Braga.

A estética deixa de buscar juventude e passa a promover qualidade de vida

A transformação também acontece dentro das clínicas de estética Na Mooca, em São Paulo, o Espaço Hi, centro especializado em estética, beleza, saúde e bem-estar, observa um crescimento constante da procura por tratamentos entre pessoas acima dos 60 anos. Para a CEO Ellen Amadi Barros, o conceito de beleza mudou completamente.

“O que percebemos no Espaço Hi é um crescimento consistente da procura por tratamentos por pessoas acima dos 60 anos. A grande mudança é que esse público deixou de enxergar a estética como um luxo ou algo voltado apenas para a aparência. Hoje, ela faz parte de uma rotina de autocuidado, bem-estar e qualidade de vida. As principais demandas estão relacionadas à saúde da pele, hidratação, melhora da flacidez, estímulo de colágeno, redução de manchas e cuidados corporais que proporcionem conforto e bem-estar. O foco está em preservar a vitalidade e a autoestima. Foi necessário criar uma experiência muito mais personalizada. A pele madura possui características específicas e exige protocolos diferenciados, além de um atendimento acolhedor, respeitando o tempo de cada cliente. A experiência passou a ser tão importante quanto o resultado”, comenta Ellen.

Na medicina, o movimento segue a mesma direção. A Clínica Dra. Mariana Comério, no Espírito Santo, especializada em Nutrologia, Terapia Nutricional Injetável, implantes hormonais, emagrecimento, saúde da mulher e envelhecimento saudável, percebe uma mudança significativa no comportamento do público acima dos 60 anos. Segundo a médica nutróloga Dra. Mariana Comério, os pacientes passaram a investir mais em prevenção do que em tratamento.

“Eles entenderam que não é mais só tratar doenças. Hoje buscam prevenir problemas futuros, preservar a capacidade cognitiva, manter a massa muscular, fortalecer a imunidade, melhorar a composição corporal e envelhecer com autonomia. Antigamente, muitos homens só procuravam atendimento quando eram incentivados pelas esposas. Hoje eles chegam sozinhos, entendendo que investir na saúde é uma forma de manter produtividade, disposição, desempenho físico e qualidade de vida. Uma alimentação equilibrada fornece os nutrientes necessários para o funcionamento adequado do organismo. Já a manutenção da massa muscular faz toda a diferença porque preserva autonomia, mobilidade, cognição e reduz processos inflamatórios, protegendo também a saúde cardiovascular e cerebral”, explica Dra. Mariana que reforça que para envelhecer bem significa investir diariamente em hábitos saudáveis.

Uma geração que transformou o mercado

Embora cada setor observe comportamentos diferentes, todos os especialistas concordam em um ponto: o consumidor 60+ já não pode mais ser tratado como um nicho. Ele frequenta restaurantes, investe em cursos, utiliza tecnologia, busca prevenção, faz procedimentos estéticos, planeja viagens, influencia decisões familiares e continua aprendendo ao longo da vida.

Mais do que aumentar a expectativa de vida, essa geração passou a redefinir o próprio significado de envelhecer. Para empresas dos mais diversos segmentos, compreender esse novo perfil deixou de ser apenas uma oportunidade de mercado e tornou-se uma necessidade estratégica.

Afinal, a geração dos avós continua acumulando histórias, mas agora também movimenta bilhões de reais, impulsiona a inovação e mostra que longevidade é sinônimo de autonomia, propósito e qualidade de vida.