Certificação da lã gaúcha alcança quase 600 mil quilos em quatro safras

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Resultados incluem alta de até 65,1% na receita por ovelha e novos desafios para ampliar o programa no Rio Grande do Sul

A certificação da lã gaúcha alcançou quase 600 mil quilos em quatro safras desde o início do programa conduzido pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco). Os resultados foram apresentados nesta quinta-feira (30), durante o 3º Dia da Lã, realizado na sede do Sindicato Rural de Sant’Ana do Livramento (RS).

Na abertura, o presidente da Arco, Edemundo Gressler, afirmou que a cadeia iniciou uma nova etapa após um período no qual a lã perdeu participação na renda das propriedades. Segundo ele, a certificação acrescenta critérios técnicos ao conhecimento acumulado por gerações de criadores na seleção para peso, brancura dos velos e qualidade das fibras. “A lã pagava as contas e, depois, deixou de pagar. Passamos por um período de muita timidez, até percebermos que algo precisava ser feito”, afirmou Gressler. O presidente também informou que o Rio Grande do Sul concentra mais de 90% da lã brasileira com valor têxtil e defendeu o avanço na identificação, na qualificação e na apresentação dos lotes.

A primeira palestra técnica abordou o mercado mundial da lã. O responsável pelo Departamento de Lãs da Zambrano & Cia e presidente da União de Consignatários e Rematadores de Lã do Uruguai, Santiago Onande, analisou a oferta, a demanda e os preços nos últimos dez anos. Depois das cotações elevadas entre 2017 e 2018, o mercado foi afetado pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, pela pandemia, pela inflação, pelos juros altos e pelos conflitos internacionais. A retração do consumo provocou o acúmulo de estoques em propriedades e empresas exportadoras de diferentes países.

Entre 2020 e 2025, a procura permaneceu baixa e seletiva, com períodos nos quais os valores não cobriam os custos da tosquia. A indústria absorveu gradualmente os volumes armazenados, enquanto a redução dos rebanhos ovinos diminuiu a oferta mundial. Onande afirmou que 2026 apresenta estoques menores e demanda por diferentes categorias. “Hoje existe uma procura muito ativa por todas as lãs colocadas à venda, o que alcança produtores de diferentes raças e tipos de fibra”, relatou.

A menor disponibilidade está relacionada aos anos de baixa remuneração, à concorrência com outras atividades e à falta de mão de obra especializada. No Uruguai, os preços mais altos da carne também levaram produtores a reduzir os plantéis.

Na sequência, o gerente da barraca da Estancias Puppo S.A., Gonzalo Durán, e o gerente de certificações da empresa, José Luiz Trifloguio, trataram do recebimento da lã pela indústria uruguaia. A apresentação abordou classificação, acondicionamento, identificação dos lotes e exigências para a compra da matéria-prima.

Os cinco anos do Programa de Certificação da Lã Gaúcha foram apresentados pelo coordenador do trabalho, Sergio Muñoz, e pelo zootecnista e técnico da Arco na parceria com o Fundovinos, Leonardo Santos Farion. Muñoz lembrou que a iniciativa começou durante um dos períodos mais difíceis para a comercialização da fibra. “No início do programa, não tínhamos números para apresentar. Tínhamos um futuro a ser trabalhado. Hoje já temos uma realidade, embora ainda exista muito a fazer”, disse Muñoz.

Farion concentrou a maior parte da apresentação nos resultados técnicos e econômicos. A safra 2022/23 teve 120.130 quilos certificados. O volume passou para 190.661 quilos em 2023/24, ficou em 139.116 quilos em 2024/25 e chegou a 121.523 quilos em 2025/26.

Juntos, os quatro ciclos levaram o programa a quase 600 mil quilos de lã acondicionada. Farion avaliou que o total ainda representa uma parcela reduzida do potencial gaúcho, principalmente entre produtores que comercializam a fibra sem conhecer a finura, o rendimento ao lavado e a composição dos lotes. “Se não conhecermos a finura, o rendimento e a qualidade da lã, não temos como formar o preço. Muitos produtores ainda estão deixando dinheiro na propriedade por não medir e classificar o produto”, afirmou.

Os valores de referência apresentados variaram conforme a micronagem, medida que indica a espessura da fibra. As cotações foram de US$ 10 por quilo para lãs de 18 micra, US$ 8,50 para 20 micra, US$ 6,50 para 22 micra, US$ 5 para 24 micra, US$ 2,60 para 28 micra e US$ 2,40 para 31 micra, antes dos custos de frete e comercialização. Para Farion, a medição e a separação dos lotes interferem diretamente na remuneração. “A certificação converte precisão técnica em dólares. Quando o produtor conhece o produto, consegue negociar com dados e agregar valor ao mesmo rebanho”, explicou.

Dados apresentados durante a palestra indicaram que propriedades certificadas registraram, em 2024, aumento de 52,8% no valor líquido da lã e de 65,1% na receita por ovelha em relação ao ano anterior. Os resultados consideraram o acondicionamento, a análise laboratorial e a comercialização de lotes identificados.

Entre os próximos desafios estão ampliar a presença da lã certificada nos mercados interno e externo, aumentar a adesão de produtores e qualificar mais mão de obra especializada, especialmente nas comparsas. O programa também prevê capacitação integrada dos profissionais e a segunda edição do Manual de Normas de Acondicionamento, elaborado em parceria entre o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e a Arco.

Após a apresentação, os produtores Fernando G. Martins, Edegar Faria e Raul Matias Telesca relataram experiências de comercialização dentro dos critérios da certificação gaúcha. Os depoimentos trataram das mudanças no preparo dos lotes, na negociação e nos valores recebidos.

Durante a mesa-redonda sobre a indústria brasileira, o mercado e as projeções, Gressler chamou atenção para a redução da oferta de ovinos e para os efeitos dos cruzamentos industriais voltados à produção de cordeiros. Segundo ele, a substituição de matrizes de raças laneiras pode comprometer, no futuro, a disponibilidade de lã qualificada no estado. “Lã e carne não são excludentes, mas precisamos olhar para o risco de substituir matrizes laneiras e nos afastar de um produto de qualidade que o Rio Grande do Sul já produz”, afirmou. Para o presidente, produtores, entidades e indústria precisam discutir formas de atender à demanda por carne sem perder o potencial têxtil dos rebanhos.

A programação foi encerrada com uma mesa-redonda sobre a participação das instituições e as perspectivas para a continuidade da certificação. O debate tratou da ampliação do programa e da articulação entre produtores, entidades e empresas. O 3º Dia da Lã foi uma ação do Termo de Fomento FPE 2787/2024.

Foto: Lorena Riambau Garcia/Divulgação

Texto: Nestor Tipa Júnior/AgroEffective

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