Integração do Pix com Europa levanta debate sobre segurança

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Estudos para uma possível conexão entre o Pix e o sistema europeu de pagamentos instantâneos abriram uma nova discussão sobre os desafios regulatórios e de segurança envolvidos na internacionalização das transferências em tempo real. O Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu avaliam a viabilidade de integrar o Pix ao TARGET Instant Payment Settlement (TIPS), infraestrutura utilizada para pagamentos instantâneos na Europa. As conversas ainda estão em estágio inicial e uma eventual iniciativa-piloto poderia ocorrer a partir de 2028.

O brasileiro Thiago Engler, que acumula 33 anos de atuação no mercado financeiro e exerce funções estatutárias em bancos e instituições financeiras desde 2012, passou a atuar nos Estados Unidos em 2025 com projetos relacionados a pagamentos globais e instantâneos. Diante das discussões recentes sobre a possível conexão entre os sistemas brasileiro e europeu, ele defende que a expansão internacional do Pix seja acompanhada por mecanismos específicos de controle.

"O Pix é uma enorme conquista tecnológica brasileira. Mas não sou favorável à internacionalização direta do Pix sem layers de segurança, compliance e controle cambial", afirma Engler.

Para o executivo, a velocidade das transações internacionais amplia a necessidade de mecanismos capazes de verificar origem e destino dos recursos, identidade dos envolvidos, prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo, sanções econômicas e eventuais indícios de fraude antes da conclusão das operações.

"Quando o dinheiro atravessa uma fronteira em segundos, quem consegue analisar e, se necessário, interromper a operação antes da liquidação?", questiona.

A regulamentação brasileira já prevê controles específicos para operações internacionais envolvendo ativos virtuais. O Banco Central informa que possui competência para regular, autorizar e supervisionar prestadores de serviços desse segmento. A Resolução BCB nº 520, de 2025, passou a disciplinar o funcionamento dessas empresas, enquanto novas normas publicadas em 2026 ampliaram as exigências prudenciais aplicáveis ao setor.

Thiago Engler cita justamente esse movimento regulatório ao comparar diferentes alternativas de pagamentos internacionais. "Na minha visão, SWIFT e stablecoins operadas dentro de um ambiente devidamente regulado ainda oferecem uma arquitetura de controle que considero mais adequada para pagamentos internacionais", afirma.

Segundo o Banco Central, operações com ativos virtuais que envolvam transferências internacionais em moeda estrangeira também precisam observar as normas cambiais e ser realizadas por intermédio de instituições autorizadas a operar no mercado de câmbio.

Para Thiago Engler, a mesma lógica deveria acompanhar uma eventual estrutura internacional baseada no Pix. "Se estão sendo criados layers de proteção para stablecoins, por que seria aceitável um Pix internacional sem um layer equivalente? Não se trata de uma disputa entre tecnologias, mas de coerência regulatória", afirma.

Outro ponto levantado pelo especialista envolve fraudes. Atualmente, o Pix conta com o Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado para tentar recuperar valores em situações de golpes e fraudes. Quando acionado, os recursos disponíveis na conta do recebedor podem ser bloqueados enquanto as instituições analisam a ocorrência. A própria autoridade monetária ressalta, no entanto, que a recuperação não é garantida e depende, entre outros fatores, da existência de saldo disponível.

Essa característica ganha outra dimensão em operações entre diferentes jurisdições, segundo Engler. "Quem bloqueia? Quem faz o recall? Quem assume o prejuízo? Como recuperar o recurso depois da liquidação?", questiona.

O executivo também aponta diferenças entre limites bancários concedidos a clientes e os controles aplicáveis às operações de câmbio. "Limite bancário não é a mesma coisa que enquadramento cambial", afirma. Segundo ele, uma estrutura internacional precisaria definir como seriam monitoradas transações realizadas por um mesmo CPF em diferentes instituições, eventuais operações fracionadas e informações sobre natureza e finalidade dos pagamentos.

Na avaliação de Thiago Engler, uma eventual conexão internacional deveria contar com uma camada regulada entre o Pix doméstico e a liquidação no exterior, responsável por controles de compliance, prevenção a fraudes e acompanhamento cambial. "Não sou contra o Pix nem contra a inovação. Sou contra transformar velocidade em sinônimo de eficiência sem colocar segurança na mesma equação", afirma.

As discussões entre Brasil e Europa permanecem em fase de avaliação e não significam que consumidores já poderão utilizar o Pix diretamente em estabelecimentos europeus. O projeto estudado prevê analisar a interoperabilidade entre duas infraestruturas de pagamentos instantâneos e ainda depende de questões técnicas, cambiais e regulatórias antes de uma eventual implementação.

Para Thiago Engler, o avanço tecnológico pode permitir essa integração no futuro, desde que os mecanismos de proteção evoluam na mesma proporção. "O Pix internacional pode ser uma realidade, mas somente deveria acontecer quando existirem layers de compliance, prevenção à fraude e controle cambial tão robustos quanto a própria tecnologia. Velocidade é inovação. Velocidade com controle é evolução", conclui.