Crédito consignado privado cresce 276% em um ano, mas enfrenta desafio entre acesso, risco e preço

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Por Atômico Press

O crédito consignado privado vive uma das fases de maior transformação de sua história no Brasil. Em pouco mais de um ano, o estoque da modalidade saltou de R$ 41,9 bilhões para R$ 140 bilhões, enquanto as concessões cresceram 276% em 12 meses.

Para Igor Sartor, cofundador e CEO da CredSpot, fintech especializada em crédito consignado para trabalhadores celetistas, esse movimento representa apenas o início de um mercado com potencial muito maior.

“O consignado privado é, sem dúvida, o benefício com maior potencial de escala do mercado brasileiro nos próximos anos “

A avaliação considera o tamanho da população potencialmente atendida. O Brasil possui mais de 39 milhões de trabalhadores com carteira assinada, mas a penetração do produto permanece abaixo de 20%, segundo a análise do executivo.

A diferença em relação ao consignado público reforça essa perspectiva. Segundo os dados apresentados por Sartor, a modalidade voltada aos servidores públicos movimenta cerca de R$ 390 bilhões, enquanto o consignado privado soma R$ 113 bilhões. Apesar do crescimento acelerado, o crédito destinado aos trabalhadores da iniciativa privada ainda tem espaço para ampliar sua participação nesse mercado.

O desafio, portanto, vai além de aproveitar a demanda potencial: como expandir a modalidade de forma sustentável, ampliando o acesso ao crédito sem comprometer a qualidade das operações?

De R$ 41,9 bilhões para R$ 140 bilhões em pouco mais de um ano

A velocidade de expansão chama atenção porque o mercado passou por uma mudança estrutural em sua forma de operar.

Antes das novas regras, a concessão dependia de convênios individuais entre instituições financeiras e empregadores. Esse modelo criava uma barreira operacional para instituições que buscavam ampliar sua atuação.

O lançamento do Crédito do Trabalhador, em março de 2025, alterou essa dinâmica ao centralizar os processos de averbação por meio do eSocial e permitir que os trabalhadores recebessem propostas de diferentes instituições pela Carteira de Trabalho Digital.

Conhecido como leilão da CTPS, o mecanismo ampliou a possibilidade de comparação entre ofertas e estimulou a concorrência entre bancos, financeiras e fintechs.

Na avaliação de Igor Sartor, essa mudança de infraestrutura explica parte importante do crescimento observado.

“O empréstimo para trabalhadores com carteira assinada já existia antes de 2025, mas operava num modelo em que a averbação dependia de convênio individualmente entre cada instituição financeira e cada empregador.”

Segundo o executivo, o novo modelo criou condições para que instituições de diferentes portes disputassem o mesmo cliente.

“O trabalhador passou a autorizar o compartilhamento dos próprios dados e a receber ofertas concorrentes pelo crédito “

A mudança aumentou a competição e reduziu a dependência do trabalhador em relação à instituição financeira onde recebe seu salário.

A competição começou a pressionar as taxas

A maior competição também pressionou os preços do crédito. Nos primeiros meses de expansão, as taxas permaneceram elevadas porque as instituições ainda não dispunham de histórico suficiente para avaliar o comportamento das novas carteiras. Com o acúmulo de dados, a percepção de risco mudou, e a taxa média do consignado privado passou a operar entre 3,2% e 3,4% ao mês, enquanto o crédito pessoal sem consignação permanecia acima de 6%.

Para Sartor, esse movimento demonstra que a concorrência já pressionava os preços antes mesmo da introdução do teto regulatório.

Em abril de 2026, entrou em vigor o limite de juros para o produto sem garantia, próximo de 4,98% ao mês. A regra também estabeleceu que o custo efetivo total (CET) não pode ultrapassar em mais de um ponto percentual a taxa da operação. Embora a medida buscasse reduzir o custo do crédito para o trabalhador, seus efeitos levantaram discussões sobre o equilíbrio entre juros, risco e disponibilidade de recursos.

Os números ilustram essa questão. Em março, último mês completo antes da nova regra, as concessões chegaram a R$ 10,6 bilhões. Em maio, primeiro mês completo sob a nova sistemática, o volume caiu para R$ 7,7 bilhões, uma retração de 29%. No mesmo período, a taxa média recuou de 3,82% para 3,67% ao mês, queda de 0,15 ponto percentual.

Para Sartor, o contraste entre a redução dos juros e a retração das concessões merece atenção.

“A relação entre esses dois movimentos é o que merece discussão. A redução de preço obtida foi marginal, enquanto a contração de volume foi expressiva.”

Segundo o executivo, o impacto pode ser maior entre os clientes de risco mais elevado, cuja concessão depende de condições adequadas para precificar o risco.

“O cliente de menor risco, que já era atendido às taxas mais baixas, seguiu sendo atendido. A retração se concentrou na faixa de risco mais elevado, que só é endereçável quando existe espaço para precificar esse risco adequadamente.”

Inadimplência coloca análise de risco no centro da discussão

A expansão do mercado também trouxe uma preocupação para investidores e instituições financeiras: a inadimplência. Em maio de 2026, a taxa de atrasos superiores a 90 dias no consignado privado chegou a 7,91%, enquanto o índice do sistema financeiro como um todo estava em 4,7%.

A atratividade da modalidade para o mercado de capitais também depende das condições de rentabilidade. Com a Selic em 14% ao ano, um FIDC lastreado em consignado pode oferecer spread entre 0,8% e 1%, segundo os dados apresentados por Sartor. Em uma debênture com prazo comparável, a diferença ficaria entre 0,5% e 0,6%. Esse prêmio ajuda a explicar o interesse dos fundos, mas precisa ser avaliado em conjunto com os riscos das carteiras.

Diferentemente do que ocorre em outras modalidades de crédito, o desconto em folha não elimina todos os riscos da operação. A carteira está sujeita a fatores relacionados ao trabalhador, ao empregador e aos processos operacionais, como falhas na escrituração dos contratos e erros durante a execução das operações.

Sartor destaca essa estrutura como um dos principais desafios para o amadurecimento do setor.

“O risco do consignado privado tem uma estrutura própria, diferente do crédito pessoal comum.”

Segundo o executivo, a análise de risco deve considerar a possibilidade de a empresa não escriturar o contrato corretamente, falhas operacionais ao longo da operação e o desligamento do trabalhador.

Essa avaliação é especialmente relevante diante do interesse crescente de investidores institucionais. Para que a modalidade mantenha sua atratividade, a rentabilidade precisa compensar as perdas esperadas. Se as taxas forem reduzidas sem uma diminuição proporcional do risco, a disposição dos fundos para financiar novas operações poderá cair.

Como resume Sartor:

“Comprimir a taxa sem reduzir simultaneamente a perda esperada tende a estreitar a base de investidores dispostos a financiar o produto.”

Tecnologia pode definir quem ganha a próxima fase do mercado

Se a primeira fase do mercado foi marcada pela expansão do acesso, a próxima pode ser definida pela capacidade de analisar melhor o risco.

A tecnologia passa a ocupar uma função estratégica nesse processo. Sistemas capazes de cruzar informações sobre trabalhadores, empregadores e operações podem ajudar instituições a identificar padrões que uma análise tradicional não consegue capturar.

O objetivo não consiste apenas em rejeitar operações de maior risco. Uma análise mais sofisticada também pode encontrar bons clientes dentro de grupos que os modelos tradicionais classificariam de forma excessivamente conservadora.

Essa capacidade pode ampliar a oferta sem exigir que as instituições assumam riscos incompatíveis com o retorno esperado

É nesse ponto que empresas especializadas em soluções digitais para consignado CLT, como a CredSpot, encontram uma oportunidade de atuação.

Para Sartor, a tecnologia precisa contribuir diretamente para a qualidade das decisões.

“As instituições que devem se destacar são aquelas com tecnologia de análise de crédito efetivamente embarcada.”

O executivo acrescenta que o principal diferencial estará na capacidade de separar as diferentes origens da inadimplência.

“Essa distinção é o que permite maior assertividade na concessão, tanto para aprovar operações que o mercado nega, quanto para negar operações cujo risco não está sendo corretamente identificado.”

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