O Rio Grande do Sul registrou 1.548 mortes por suicídio em 2024, com uma taxa de 14,87 óbitos por 100 mil habitantes, segundo boletim epidemiológico da Secretaria Estadual da Saúde. No mesmo ano, foram notificadas 11.324 ocorrências de lesões autoprovocadas, que incluem comportamentos autolesivos e tentativas de suicídio. O levantamento também aponta que, na população adulta, para cada morte por suicídio, há uma estimativa de outras 20 pessoas que atentaram contra a própria vida.
Os números ajudam a dimensionar um problema que exige atenção também fora dos consultórios e serviços de saúde. No Brasil, foram registradas mais de 17 mil mortes por suicídio em 2023, segundo dados do Ministério da Saúde. O próprio órgão destaca que as mortes podem ser prevenidas e que a identificação precoce de situações de risco é fundamental.
É nesse contexto que o Setembro Amarelo reforça a importância de olhar para mudanças de comportamento em amigos, familiares e pessoas próximas. Porém, para Mateus Freitas Cunda, docente do curso de Psicologia da Estácio, não existe uma lista única de sinais que permita identificar uma situação de risco. Manifestações de desesperança, falta de motivação para viver, perda de sentido ou falas sobre não querer mais estar aqui podem chamar a atenção, mas precisam ser compreendidas dentro do contexto de cada pessoa.
O sofrimento também pode aparecer de maneiras menos evidentes: comportamentos impulsivos e a exposição frequente a situações de risco, inclusive relacionados ao uso de substâncias, relações violentas ou comportamentos sexuais de risco, podem indicar que algo não vai bem, mesmo quando não há uma tristeza aparente ou sinais claros de depressão. Por isso, mudanças bruscas ou persistentes na forma como alguém se relaciona consigo mesmo e com os outros merecem atenção.
“É importante que um profissional possa fazer uma escuta qualificada e entender qual é o nível da gravidade”, explica Cunda. A escuta, nesse sentido, não significa necessariamente presumir que a pessoa tenha intenção de morrer, mas compreender o que está por trás de falas sobre a vida, a morte, o cansaço ou a sensação de não encontrar uma saída.
Para familiares e amigos, o principal caminho é abrir espaço para uma conversa acolhedora, sem julgamentos ou tentativas de minimizar o sofrimento. Quando houver desesperança intensa, comportamentos de risco ou questionamentos recorrentes sobre a própria vida, a orientação é incentivar a busca por ajuda profissional. “O importante é escutar sobre essa desesperança e encontrar com a pessoa um caminho de cuidado”, afirma o docente.
A prevenção, portanto, não depende de reconhecer um único comportamento ou de identificar antecipadamente uma tentativa. Envolve estar disponível para ouvir e levar o sofrimento a sério para ajudar a pessoa a encontrar possibilidades de cuidado quando, naquele momento, ela própria não consegue enxergá-las.